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segunda-feira, janeiro 24, 2005

o breve limite entre o existir e o não-existir

as nuvens apareciam por detrás da Basílica da Estrela. imponentes e graves, os sinos tocavam, assinalando a hora da missa e a consequente entrada dos fiéis: os homens de fato preto e chapéu de friso cinzento. o mundo era belo para a bela Felisbela que se admirava por tudo, ou por nada, como entendiam os mais velhos, Vejam só a criancinha, já diz Oh, Mas Oh o quê?! respondia Edmundo um pouco carrancudo. E já sabe apontar, vejam só o dedinho espetado, tão inocentezinha. Felisbela viria a crescer e a tornar-se uma mulher...

raimundo já tem 77 anos, está velho. quem diria que o vigor no seu corpo era tanto como na mente, que espírito. raimundo vivia no sétimo andar de um prédio velho em lisboa. viria a morrer no dia 7 de julho, 7 anos depois de ter acabado de escrever um livro, nunca mais os degraus daquele prédio sentiram os seus passos...

a igreja de nossa senhora da graça em odemira goza de uma paz branca e pura, sempre gozou. celebravam-se as missas todos os dias às horas certas, 3 minutos depois de soar o sino tocado pelo abade rafael. todos gostavam do abade, a dona custódia dizia-lhe, Vá com Deus homem, e ele respondia, Não, que Ele agora vai consigo. um dia o sino não tocou as 3 vezes às 3 da tarde, mas 3 minutos depois, todos estavam no adro da igreja e rapidamente se questionaram em silêncio e penitência, entraram na igreja e sentaram-se. todos permaneciam sentados e em silêncio, passados 3 minutos de reflexão, timótio levantou-se, foi até ao altar, tomou o sangue de Deus na sua mão e, lentamente, passando pelos crentes um a um, derramou o vinho nas suas bocas, receptivas à paz divina...

Autor: Motta

sábado, janeiro 22, 2005

fotografar é registar o esquecimento

fecho os olhos,
um preto profundo...
fecho os olhos
e construo uma memória
do tamanho do mundo,
onde cabe uma história
de princesas e vestidos com folhos.

acabo de acordar,
o eu que se vê ao espelho
vê-se velho e curvado...
o eu que se parte,
parte-se em sete
e reparte-se para voltar a ser
reflexo:
a imagem espalhada do tempo
num espaço
que não tem nexo.

fotografar
é registar o esquecimento,
é perder e encontar
o derradeiro momento,
onde tudo pára e se reverte
para a imobilização do vento.
é refazer o que não foi feito,
é guardar vivo no peito
quem morreu,
é olhar um espelho no escuro
e reencontrar o eu.
Autor: Motta

sexta-feira, janeiro 21, 2005

apelo a dia 20 de fevereiro

propostas para a resolução dos problemas da nação,
e mais propostas, propostas e intenções,
já não existem nações!

perdeu-se a noção do indivíduo e quem a tem é egoísta,
e não quer saber da miséria alheia
eles que comam alpista!

os vampiros e morcegos submissos lá no alto guincham,
os pardalinhos pobres e pobrezinhos,
ignorantes de nome,
trabalhadores por apelido e poetas por alcunha
esfolam-se e lutam até à unha,
mas afinal são eles que cantam
e não dormem de cabeça para baixo.

os tempos da revolução já passaram,
«esta merda dos partidos é que divide a malta»
qual quê, a malta não quer é trabalhar!
encostamo-nos ao quinto império
e ao D. Sebastião que não chega,
e assim, onde vamos nós chegar?
ele há coisas que não é para falar,
só de pensar, faz tremer,
o que vai acontecer quando podermos votar?
«para safado, safado e meio»
Autor: Motta

Cara Amora

Cara Amora,

Venho por este meio informar vossa excelência que a sua presença na
conferência interestadual dos AA (amorólicos anónimos) é indispensável.
A dita conferência realizar-se-á durante a próxima semana com início no
Domingo.

Assuntos a debater e acções a pôr em prática:

- será ou não relevante a existência da AAA
- sendo relevante, quais as medidas a tomar para expandir o mercado
- eleição de um presidente e vice-presidente
- elaboração de um código de honra
- aprensentação desse mesmo código aos sócios
- distribuição das tarefas pelos membros da administração
- beijos
- abraços
- beijos
- abraços
- carícias
- festinhas
- trocas e partilhas de cumplicidades

Grato pela atenção,

Adónis

Autor: Motta

terça-feira, janeiro 18, 2005

trocas trocadas

neste passo a que me passo da cabeça que me começa a pesar,

despeço-me da pessoa que me passa a passagem que é do espaço.

a vontade de voltar à visão de me rever,

revê-se na vista da verdade, do retorno e do esquecer.

o esquecer que esquece o medo de falar e de viver,

vê-se encontrado no esquecimento de se esquecer de esquecer.

a confusão confusa de se brincar com palavras

e com lavras de livrar esta terra de morrer,

livra-se a si própria e à propriedade alheia

que se enterra numa teia e nela se há-de perder.

a perdição de me querer a meu lado

perde-se no lado aluado de me ler na literatura

e o lado mole da moleza que se escuta,

molda-se em pedra dura.

entretanto:

tudo fura a gentalha que hoje pega na mortalha e no fumo que há-de vir,

para o fumar no fumeiro da gentalha que critica a gentalha que hoje fuma pra sorrir.

os trocadilhos do tempo que trocam as trocas da vida,

trocam-se e deixam trocada a gente que já está perdida,

quem se trocou outra vez à troca que o mundo dá,

que se troque de uma vez só e se acalme,

até à hora sagrada do chá.

Autor: Motta

(fragmentos)

(fragmentos em tempos)
o poder das palavras da revolta:
é poder dizer não a tudo e dar meia-volta,
é poder esquecer o dia em que me vi,
é poder reencontrar-me esquecido,
é poder estar aqui a escrever e dizer-me desaparecido,
é poder isolar-me de tudo e contemplar o universal,
é poder dizer bem de tudo quando tudo estão tão mal,
é poder mentir sobre questões importantes da nação,
é poder rimar como me apetecer mesmo não escrevendo uma quadra
impedir uma palavra dura em vez da fuga de uma ladra.
as RUAS apinhadas de piolhos fedorentos
que dominam estes tempos
e fracassam nos momentos
que hoje passam estas noites
ensacados nesses sacos
noutros lados encharcados por bebidas loucas.
tantas e tão poucas emoções
enquanto eu coço estes colhões
que ardem,
nessas noites que são poucas e são tantas,
criamos as crianças numas antas,
formamos as pessoas como dantes
entristecemos essas ruas
que aí vêm aos saltinhos saltitantes:
repetições, repetições aos milhões exurbitantes!
e a mensagem que passa de boca em boca
sai em forma de micróbio e carraça,
a mensagem que hoje toco já não passa....
repetições que hoje passam pelos paços
já usados em serenos sobressaltos
por poetas já falados
numas teclas e nuns sonhos já sonhados,
repetidos em milhões de espaços
que aguardam reuniões para decidir onde vai parar esta linha:

............................................................a linha que é toda minha.........................................................

Autor: Motta